Um dia no cais (1966), de João Antônio #joãoantonio #literaturamarginal
Rita se raspou. Odete Cadilaque ao deus-dará. Bebida, estropiada da noite. Uns olhos raiados de sangue, trapo, caricatura. Trapão. Capionga, lenta, cabeça baixa, se arrasta do botequim para a rua. Coça a coxa, enverga o espinhaço, a mão esfrega a barriga das pernas. Soltando pragas: — Isso não dá pé. Quê o quê! Tou dura, lesa e ainda apitada. Me atrasaram a vida. Lá, o ponto dos bondes. A casinha verde, hexagonal, bomba dos esgotos do cais. Os marinheiros, viajados, dizem que aquilo se parece com as bancas de jornal, na França. De frente para a rua dos inferninhos, onde Odete Cadilaque, negrinha de bordô encardido, lenço verde à cabeça tapeando o pixaim, se encosta, senta. Pernas, joelhos e uma nesga das coxas aparecem. Odete se ajeita, se encolhe.
No meio das misérias, há gente que passa montado, desfila seu luxo de carro. Odete Cadilaque dorme no chão, na rua Noite. Chegou a hora de expandir. Odete Cadilaque. Está aí — dezesseis anos. Diz, de boca, que tem vinte. Mas esses vinte se parecem com vinte e cinco. A neguitinha anda engolida. Marcada de pau, corte, noites, fomes, soneira. Na soleira da casinha verde vai se aninhando, como uma criança. O corpo caindo na madorna, quentando. E dorme com o dedo na boca. Acordará, quando se acordar, com o sol na cara. Quebrada, faminta. A boca seca estará uma pasta. Aí, apanha o primeiro que aparecer. (É apostar e ganhar.) Corre ao boteco comer um sanduíche. Uma carroça. Sacos de carvão, cavalo e homem, lentos.
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