75 anos: ninguém quer me contratar, acabou minha vida profissional?




Cheguei aos 75 anos sem trabalho, sem renda, sem entradas, só saídas.

Trabalhei meus últimos quatro anos na Órama Investimentos como assistente

de programação, mas aí, o Banco BTG Pactual comprou a Órama e 

fiquei sem o emprego.

Meu maior erro foi (além de ser fumante!) foi nunca guardar dinheiro, economizar, 

não pensar que um dia não teria mais 20 anos. Só pagava o INSS.

Tudo começou bem cedo, comecei a trabalhar com 1967, era office boy do Unibanco,

mas foram poucos meses, pois como meu pai era fotógrafo, por influência dele fui trabalhar em um laboratório

fotográfico, analógico evidente, fotos em preto em branco. Eu fazia negativos a

partir de fotos originais, por exemplo, fotos em 3 x 4 e ampliava as pessoas no ampliador

fazendo enxertos em fotos de corpo inteiro com as pessoas vestidas de roupa de noivos.

 Então a mulher ficava vestida de noiva e o homem de noivo (corpo inteiro). Eles tinham se casado em

lugares que não existia fotógrafo. Depois do enxerto feito, um pintor fazia o acabamento

e eu emoldurava e ia entregar aquela "obra de arte". As pessoas gostavam e pagavam em

prestações o trabalho, assinando notas promissórias. 

Eu morava em São Paulo, no Ipiranga

e o laboratório era na Rua Tamandaré. Ia de ônibus elétrico ou de bonde. Foi nesse laboratório

(trabalhávamos no escuro, às vezes com uma luzinha vermelha) que aprendi a gostar de Rádio Novela

e de Música Popular Brasileira. Só ouvíamos Dalva de Oliveira, Nelson Gonçalves, Orlando Dias, 

Elizeth Cardoso, Inezita Barroso e muitos outros. O proprietário gostava muito, Sr. Orlando, e

como era só ele e eu, obedece quem tem juízo. Mas foi uma excelente experiência e aprendi muito

sobre como fazer as fotografias e também a gostar de novelas e MPB. (Orlando não gostava

dos The Beatles!)

Fiz vestibular para Matemática e Psicologia, ganhei uma bolsa de estudos para Telecomunicações,

mas como era muito jovem, casei, abri um cursinho de madureza (atual supletivo) e comecei a 

dar aulas de matemática. Apaixonei pelo magistério, mudei para o Paraná, me formei na

Universidade Estadual de Maringá em Licenciatura em Ciências e dava em aulas em 4 escolas 

em Cianorte e São Lourenço. Dava aulas principalmente de matemática e ciências para o ensino fundamental

da quinta a oitava série (atual do sexto ao nono ano) e cobria professores faltantes no ensino 

médio em Estatística e Educação Sanitária.

As aulas de Educação Sanitária me levaram para a cadeia pela golpe militar, pois coloquei os alunos e alunas

fazerem uma pesquisa de campo e escrevi um artigo no jornal dos estudantes O Raça, falando dos

graves problemas sanitários da cidade. O Prefeito me denunciou, fui preso e torturado pelos militares e salvo 

pelo meu pai que conhecia um dos policiais do DOPS. Sai da cadeia mediante a promessa que nunca mais ia dar

aulas (fui um professor apaixonado pelo ensino durante 8 anos), mudei para Cascavel-PR, 

onde fiquei 60 dias escondido com minha primeira esposa (que hoje está com alzheimer), duas filhas, na casa de um amigo.

Fui para São Paulo com meu irmão camarada Amâncio conseguir uma representação de cosméticos para o

Estado do Paraná, trabalho tipo Avon. Conseguimos ter 600 revendedoras com 21 promotoras para todo

estado, vendíamos muito, os produtos eram excelentes. No final do segundo ano, campanha do natal, quando íamos

ganhar um bom dinheiro o Laboratório de Cosméticos Belmont faliu.

Fomos a São Paulo e quando chegamos na empresa um papel colado na porta explicava a falência. Sentei na sarjeta 

e chorei muito, chorei tudo o que podia. Amâncio me disse: Vamos lá, a vida continua. 

Abri uma pequena loja de material fotográfico em Maringá, imitando meu pai que tinha uma em Cianorte.

Brigamos, a loja ficou com ele, e fui ser gerente de vendas em uma empresa atacadista de material fotográfico na Lapa,

São Paulo, capital. D. Odila era a proprietária e era uma fera. Trouxe a família toda para morar em São Paulo, 

com meus sogros, no Ipiranga, na Rua Bom Pastor, mesma rua do colégio que eu tinha feito o ensino médio, 

chamado científico. A mesma rua onde os militares colocaram a cabeça de meu amigo japonês Clóvis, 

que tinha sido decapitado e a cabeça colocada em cima de um carro para servir de exemplo. 

Ele era o presidente do GEMA: grêmio estudantil Machado de Assis.

Como Gerente de Vendas da Colorkit viajava muito pelo estado de São Paulo, às vezes ficava duas semanas 

longe das minhas filhas e de minha esposa. Ela não aguentou, e um dia peguei seu diário e lá ela contava

que tinha um namorado. O casamento acabou, fui morar num apartamento perto da rua Augusta e mudei de emprego:

fui ser Gerente de Vendas da FOBRASCO, proprietários argentinos, que importavam material cine-fotográfico, como

projetores de slides, projetores e filmadoras de super 8, flashes eletrônicos e muito mais. Comecei a viajar

quase que o Brasil todo.

Dos argentinos fui trabalhar com os alemães, os CURT'S: Curt Laboratório Cine-fotográfio Ltda, 

o maior da América Latina, 1.500 funcionários, ficava na Rua do Rossio, São Paulo. Era Supervisor de Vendas em

RS, SC, PR, MS, MT, GO, MG, ES. Trabalhava muito, viaja muito, mas gostava. Casei de novo. Mas como a primeira a 

segunda não aguentava minhas viagens, tivemos 1 casal, e ela ficou com depressão pós parto do segundo filho

(eu sequer imaginava o que era depressão pós parto, estávamos em 1980). 

Um dia, voltando de Cuiabá, nós morávamos no Parque Novo Mundo, ela tinha colocado minhas coisas em duas malas 

e disse: cai fora, se manda, não quero mais. Acabou!

Voltei para  apartamento do amigo perto da Rua Augusta, enchi a cara e dormi dois dias. Quando

voltei para o escritório do Curt Laboratório tinha um recado na minha mesa do meu amigo Amâncio: Dia 4 de setembro

vou te levar para Governador Valadares para uma entrevista com Sr. Edson, proprietário do Laboratório Fotográfico

New Color, ele quer te contratar. Pensei: ele está maluco, não pode pagar meu passe!

Pois não só pagou como dobrou o que eu ganhava no Curt e me deu um carro usado quase novo. 

Os alemães ficaram putos.

Mas não pude recusar. Eles tinham nove lojas e eu fui ser gerente de Marketing com carta branca 

e todo o apoio. Afinal era de São Paulo.

Fui muito feliz em terras mineiras, casei de novo e nasceu a Marcela. Fiquei uns 4 anos em Valadares, 

mas a pedido do meu pai,

que já tinha 4 lojas de material fotográfico (ele era atacadista) e como tinha vivido muito pouco com ele, voltei

para o Paraná. Marcela e a mãe mudaram-se para os USA, aonde estão até hoje, e eu casei de novo com

uma catarinense que morava no Rio de Janeiro, fui morar em Marigá-PR, e ajudar meu pai.

Com dois meses meu pai morreu num acidente de carro próximo de Marília-SP, ele e sua segunda esposa.

Foi um grande baque, custei me recuperar, era tempo do desgraçado do Collor. Mudei para o Rio de Janeiro,

abri minha loja na Rua Barata Ribeiro e fiquei durante 15 anos. Aí, por causa dos assaltos na loja, vendi a loja e

vim para Teresópolis e fui ser administrador de um condomínio com 42 casas.

Saíram comigo em 2005, já com 55 anos e não arrumava emprego, fiz uma porrada de bicos, 

até motorista de prostituta eu fui.

Trabalhei com obras mas não aguentava. Fui porteiro de casa de shows e vendendor de lojas de móveis usados.

Comprava queijos Minas numa fazenda em Sebastina e ia vender em Copacabana. Conheci o marketing multinível e

ganhei um bom dinheiro, o suficiente para me sustentar e ajudar um pouco a filharada.

Em 2021 uma tristeza (perdi minha quinta companheira para o Covid) e um milagre: 

fui contratado pela Órama Investimentos como assistente de programação, que salvou minha vida.

Agora em 2025 já enviei mais de 50 currículos e nem a Prefeitura de Teresópolis pode me contratar como professor

porque sou muito velho, 75 anos. Mas com 18 anos eles contratam.

Será que acabou para mim?


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